PARA ENCONTROS DE ESCRITA - 2003

O poeta Eric Ponty, de Minas Gerais, é um dos mais respeitados do Brasil. Tanto que textos seus foram incluídos na Antologia Mineira do Século XX, organizada pelo crítico literário Assis Brasil.
Nascido em São João Del Rei, onde reside, Eric empresta aos seus textos um sentido rebelde, futurista, novo. Na sua opinião, a cultura não tem dono e nem toda expressão escrita pode ser chamada de Poesia. Ele é um escritor compulsivo, com uma vasta obra espalhada em sites de Internet e jornais literários. Mas, só agora seus trabalhos saem em livro.

Maria José Limeira



1)- Poesia. Poesia. Poesia. Por que Poesia?

A poesia é uma tentativa de compreensão e reprodução do mundo através do intelecto. Acho poesia uma coisa muito séria. Todos têm sensibilidade de compreendê-la. Mas, raros são os que conseguem reproduzir sua voz minimamente bem. Apesar de tudo o que já escrevi, e não é pouca coisa, considere-me apenas tateando neste território.

2)- Tem saída para a Literatura?

Se tem saída para a vida, também haverá para literatura; e se não houver vida, então não haverá saída para literatura.

3)- Mundo atual: saturação, inclusive na Arte. Estamos em crise? Chegamos ao limite? Até quando agüentaremos?

Realmente a arte como indústria está em crise. A arte não tem capacidade de se transformar tanto em tão pouco tempo para a próxima temporada Inverno-Verão. A arte anda com o ritmo do mundo, e não com o ritmo industrial do mundo.

4)- Quem são os Donos da Cultura?

Acho que cultura não tem dono. Quem quer passar-se por Dono é que deve ser desestimulado a deixar de sê-lo. A cultura como um bem não pode servir a interesses espúrios de certas classes, mesmo que estes interesses de loby sejam legítimos como aspiração, mas não como prática.

5)- Há um grupo de Poetas Guerrilheiros se mobilizando para criar a "Associação Contra os Latifundiários da Poesia". Isto faz algum sentido para você?

Sim, se estes interesses de loby forem contra a verdadeira poesia de gente que não tem obra para mostrar e quer fazê-lo através da teoria e do discurso. Poesia verdadeira é legitima, independente do discurso. Poesia é ave que voa e pronto e ponto final. Nenhuma teoria consegue sustentar uma obra de arte com defeito. É básico.

6)- Mesmice na Internet. Você suporta?

Poesia não são meros versos encima uns dos outros porque liberou geral na poesia. Toda expressão é valida porque é humana? Isto é idiotice. Arte é outra coisa. Um diálogo mais complexo se estabelece através da poesia.

7)- O livro de capa e papel está morto?

Mais vivo do que nunca.

8)- Por que você escreve?

Se soubesse, pararia de escrever. É como diz Ivo Barroso quanto ao sinal de Caim: "a poesia era um acontecimento. Um sinal de Caim, que nasce conosco como um pecado original. Aconteceria ou não em nós independentemente do que os outros achassem. Até mesmo do que nós próprios achássemos. Mas, se acaso sentíssemos que ela de fato acontecia, era preciso, à custa de trabalho e estudo, desenvolvê-la a ponto de se tornar uma parte de nós mesmos, nossa identidade, nossa razão de viver.Fazer deste acontecimento uma razão de vida, ou de morte, é o trabalho do poeta, seus aprendizado, sua evolução, sua realização, que estará muito aquém do quanto ele quer ou pensa poder alcançar."

9)- Que conselhos daria aos jovens que estão se iniciando na Literatura?

A verdadeira poesia só se manifesta depois de muito tempo. Antes de levar o assunto poesia mais adiante, seria bom ler Cartas a Jovem Poeta de Rainer Maria Rilke. Todas as perguntas feitas ali responder sinceramente para si mesmo. Se for positivo, então siga. Senão torne-se um bom leitor; e que já é muito importante para a poesia, encontrar o Poeta ideal que capte suas angústias e ansiedades.

10)- Texto bom? Texto ruim. Como defini-los?

T.S. Eliot escreveu alguns ensaios sobre o assunto e não conseguiu responder. Depende de quem lê, e tem muita gente que adora um estilo que ao meu ver fale apenas como testemunho humano, talvez chamando a isto de Poesia...


Maria José Limeira - Paraiba
Maria José Limeira (Ferreira) nasceu em João Pessoa-PB, Brasil, fez curso (incompleto) de Filosofia Pura na UFPB. Presa, em 1964, pelas forças da repressão, no Quartel do 15RI, abandonou seus estudos superiores,auto-exilando-se nas cidades do Rio e São Paulo, onde conviveu com os escritores Aguinaldo Silva, Vinicius de Moraes, Assis Brasil, José Edson Gomes. Conheceu, no Rio, o poeta português e crítico literário Arnaldo Saraiva, da cidade do Porto, que dedicou a ela seu livro ""Encontros/Des-encontros, amizade que perdura até hoje. Retornou à Paraíba nos anos 70, quando ingressou no Jornalismo, começando como repórter até chegar a ocupar cargos de Direção em diversos jornais, inclusive no semanário "O Momento", que ajudou a fundar...

pássaros
Os pássaros atrelam
os cânticos da terra
e voam sempre
do abismo que vivem.

Os pássaros parem
nuvens do estio
que habitam acasos
dentro da noite.

Os pássaros fluem
sobre o espaço
os cânticos da terra
seus lamentos soam.

Eric Ponty



Enquanto lia não havia sonhado com a escadaria.
No principio não havia nem a águia nem dançarina.
Na alma ansiava por jornadas, orava cânticos,
fazia viagens na busca do novo continente,
peregrinava por desérticas paisagens,
de onde até mesmo as sombras tinham receio,
havendo dispensado a barca e o marinheiro.

Tudo quanto havia o tocava, o raio da manhã.
A alma ocupada à maneira dos copistas
espantando do mundo esta melancolia tão tardia
ao desenhar
um sol tosco
e sem definições.

No fundo, sabia que a dançarina e a águia lhe
procurariam a despertá-lo.
Chegou agora a águia
eadormecido está  sobre a grande escadaria.


Eric Ponty


Eric Ponty

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